Pela milésima vez, não sou o garçom

Cena 1: festinha na casa de amiga na zona sul. Na portaria, favor se identificar ao porteiro: “Oi, vim pra festa da fulana” “Você é o garçom da festa?” “Não moço, vim festejar mesmo”. Aaah…okay.

Cena 2: aniversário de amiga em famoso bar da Savassi. Chego, cumprimento metade da turma, quando sou interrompido por um rapaz meio afoito. “Traz um copo pra mim” “Hein?” “Um copo, uma cadeira, faz alguma coisa” “Moço, eu não sou o garçom” “Ah, desculpa”.

Essas duas cenas ilustram situações que acontecem comigo volta e meia. O caso do prédio já ocorreu em outras duas ocasiões, já dos bares, perdi a conta. Não teria o menor problema em ser garçom, inclusive esse foi meu primeiro emprego. O que me ofende é ser interpelado no meio da hora feliz com cobranças e, mais, por saber que esse tipo de confusão ou gafe encobre certo racismo.

Certamente, essas cenas não se repetem porque uso o uniforme dos bares que eu frequento,mas sim porque sou negro. Parece que parte da sociedade ainda não consegue dissociar a imagem do negro de profissões tidas como subalternas (ênfase no “tidas”). Quando essas pessoas captam um preto na órbita do seu mundinho feliz, logo pensam: opa, aquele ali vai me servir.

Não tenho estatísticas de quantos garçons ou entregadores são negros, mas conhecendo o Brasil de vista, a impressão que dá é que são a maioria. Portanto, gostaria que ao chegar em um bar, as pessoas fizessem a seguinte operação:

Ainda que a realidade brasileira dê material pra que todos associem negros a posições mais baixas na escala de prestígio das profissões, pense que qualquer pessoa pode trabalhar com qualquer coisa. Em seguida, verifique se o sujeito que você avistou com “pinta de garçom” está uniformizado ou com um abridor de garrafas na mão. Vá em frente e seja atendido. E no caso de o local não ter uniforme? Imagine assim “tá ali um cara que vai me atender, aqui ou no hospital, já que além de garçom ele pode ser médico também” (fui no extremo do politicamente correto pra facilitar a ilustração). Nesse caso, levante a mão até que o verdadeiro garçom, que pode ter feições negras, nórdicas ou nordestinas venha te atender. Em ambas situações, trate bem o atendente, você não é melhor que ninguém. Obrigado.

P.S: recomendo o artigo “O novo racismo”, publicado na Folha de domingo.

Se um dia a Xuxa te oferecer um melão, aceite

Como 90% das crianças nascidas na década de 80, fui fã da Xuxa. Minha mãe conta que a Xuxa ganhava todos as enquetes sobre o que eu mais gostava: Você prefere mamãe ou mamadeira? Mamadeira. Mamadeira ou Xuxa? Xuxa. E ainda chorava como se ela nunca mais fosse voltar da nave no fim do programa. Mas no outro dia ela estava ali, a amiguinha de todas as manhãs.

E foi nessas de gostar por demais da Xuxa, que aprendi a gostar de melão. Não sei se você se lembra mas todas as manhãs ela tomava um café abastado, bem mais farto que a maioria das crianças que estavam de frente à tela. Desses cafés tirei duas coisas que trouxe pra vida: uma é passar a casca do mamão no rosto depois de comer (coisa que eu fazia naquela época e que pode não ter melhorado minha pela, mas certamente me fez mais gay), a outra é comer melão. Xuxa comia uns dois cubos da fruta amarela, convidava alguma criança feia da década de 80 pra comer morango e deixava o resto na bandeja com o Gigio (o paquito do café). Ver a cena todos os dias me fez convencer a mãe a incluir a fruta na lista de compras, algo bem complicado se a gente lembrar que naqueles anos a inflação comia metade do salário e um melão podia custar 1 milhão de cruzeiros, segundo estimativas que acabei de criar.

O caso é que ela acreditou na influência positiva da Xuxa e pôs melão no cardápio e eu pus na barriga. Passado um tempo, quando tive hepatite, ganhei um melão vermelho de uma vizinha que disse que a fruta veio do Pará e ajudava a curar a doença. Não consegui achar imagens no Google e fico em dúvida se a vizinha mentiu o nome da fruta ou se eu estou mentindo sobre isso, as duas hipóteses podem ser verdade.

Sei que hoje não sou fã da Xuxa e tinha esquecido do melão. Tinha. Passeando pelo supermercado vi uns três tipos diferentes e tive impulso de levar um. Primeiro questionei minha sanidade mental, por que um melão e não uma fruta mais popular? Por que não maçãs, uvas, bananas ou até mesmo uma ameixa? Não tinha uma explicação elevada ou ao menos razoável. Lembrei dessa história da Xuxa, botei o melão no saco e toda vez que tiro uma fatia do melão, sinto uma felicidadezinha besta.

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um melão

 

Levando a casa numa sacola

Faz um ano que estou morando no mesmo apartamento e isso é um recorde. Existe algum carma de vida passada que não me deixa quieto num canto só desde que mudei pra BH. Já fiz pelo menos dez mudanças, convivi com mais de 20 roommates (é assim que fala, né?) diferentes, tive dois gatos, um cachorro, dois patos, galinha, papagaio entre outros seres. Mas a experiência mais intensa desse muda-muda foi quando morei numa república com piscina e tudo mais. Achei a casa pelo Orkut, um morador estava de saída e anunciou a vaga. A casa tinha dois andares, uma escada ótima pra fazer ceninha de novela, área grande no fundo com piscina, rede e algumas árvores. Meu quarto contava com uma janela gigante que dava pruma varandinha cheia de plantas, cenário ótimo pra fotos do Instagram, pena que o aplicativo não existia na época. Por quatrocentos reais eu pagava o aluguel, água, luz, telefone, gás, e tinha cerveja incluída na lista de compras. Ou seja, negoção.

A primeira impressão da casa veio pelos vizinhos. Um deles estava fazendo campanha pra tirar a república dali. A carta começava com algo do tipo “Não sei se me dirijo a vocês como república ou como tribo de índios” (olha as ideias do cara) e descia a borduna reclamando do barulho de festas, além de insinuar que rolava muita droga lá dentro. Foi uma boa recepção saber que os vizinhos me odiavam sem me conhecer, mas quem se importa? Meus colegas de apartamento eram todos engenheiros, com exceção de dois, que formavam a dupla sertaneja Fabrício e Elcimar. Todo esse ambiente heterossexual me fez registrar o endereço queerguyinastraighthouse no Blogspot para narrar as aventuras dentro de casa, mas nunca quis atualizar com medo de expor demais os coleguinhas.

No primeiro domingo na casa, rolou um churrasco pra comemorar minha chegada e embora eu não quisesse, tive que participar. O público era composto de louras, outros engenheiros, a dupla e um produtor. “E aí, vc gosta de música?” “Gosto” “Sabe tocar violão” “Sei não, mas faço aula de canto” “Opaaa, legal, canta o quê?” Sempre fico com preguiça de explicar essa coisa de cantar, daí opto pelo mais fácil “Canto MPB” Ar de estupefação geral, um cara olha pro outro com dúvida: você conhece MPB? Ficou um burburinho no qual só se destacava a palavra MPB até que veio um dos cantores sertanejos, pegou o violão e falou: “MPB é tipo isso aqui” e mandou um tananam facilmente reconhecível, sim, meus amigos, era Oceano do Djavan. Tive que soltar a voz e afirmar com convicção que é amar é um deserto e seus temores.

Morar em casa grande também tem seus temores. Por ter muitos moradores, volta e meia eu achava alguém estranho por lá, mas nunca questionava as presenças estranhas, podia tanto ser um fantasma quanto um novo colega de casa. As primeiras bisnaguinhas que comprei foram comidas por um rato gigante que morava no quintal. E as galinhas do mesmo quintal costumavam tratar com violência quem invadia a área delas, não sei como lidavam com o ratão. Apesar disso, minha vida parecia tranquila e eu me sentia importante toda vez que descia a escadona de madeira no meio da sala. Tava tudo bem mesmo.

Acontece que o carma não podia deixar de me atacar. O dono da casa resolveu vender o imóvel, mas a verdade é que o administrador da república não pagava ele há meses e aí não teve jeito. Minha vidinha de instagram virou um tormento. A dupla sertaneja passou a ensaiar com mais frequência, pra dar conta dos shows e também porque iam se apresentar entre as revelações do Raul Gil. Nessa mesma época alugaram a casa pra foliões do interior se hospedarem durante o Axé Brasil. Teve festa o dia inteiro durante um fim de semana inteiro com intervalos apenas para os shows no Mineirinho. A única parte boa era roubar bebida enquanto eles estavam fora. Por esses dias também apareceu uma boneca inflável na garagem, por quem eu passava sem cumprimentar.

Encontrei um apartamento pra morar no centro da cidade, com pessoas aparentemente normais. Lógico que tudo deu errado e tive que me enfurnar de última hora na quitinete de um amigo, mas isso fica pra outra história. Depois que saímos, o casarão foi tomado por ervas daninhas e ninguém nunca mais conseguiu morar lá. Mentira, o dono colocou a venda por R$ 1,5 milhão e alguma pessoa de sorte e dinheiro comprou. Eu continuou morando de aluguel e rezo pra que nenhum imprevisto me faça mudar de novo.

Não me deixe ser feminista sozinho

Ser mulher não parece moleza. Ter alterações no humor por conta de hormônios não deve ser divertido, nem sangrar uma vez por mês ou carregar crianças na barriga por quase um ano.
Essas são coisas que por mais que eu me esforce jamais vou saber exatamente como funcionam por falta de prática. Apesar disso, faço o que posso para compreender as mulheres e defender seus direitos. É que sou feminista. Você pode achar estranho isso partir de um homem, mas ao contrário de Chacrinha, vim pra esclarecer, não confundir.

Muitas meninas tem ojeriza ao título de feminista. Acho que é medo de caírem no estereótipo da mulher solteirona e masculinizada, construído ao longo dos anos pelos inimigos das feministas históricas. É aí que entram frases do tipo “não quero ser feminista, quero ser feminina” ou “sou contra o feminismo porque acho que todos devem ser iguais”. Menina, o feminismo defende exatamente isso, que todos sejam iguais, não que as mulheres transformem os homens em capachos. Aí não, né?

Para ser feminista não é preciso queimar sutiã, deixar de usar batom ou rímel. Basta ter em mente que homens e mulheres devem ter direitos iguais. E nisso todo mundo deve concordar comigo. É não aceitar, por exemplo, que a vítima de estupro seja responsabilizada pelo crime por usar “roupas provocantes”. Ou que lhe digam que você não pode fazer engenharia civil porque não é coisa de menina. Ou ainda que mulher tem que dar conta sozinha de lavar, passar, cozinhar e ainda ser gostosa.

Pode parecer exagero falar nisso em pleno 2012, mas basta dar um giro pelas estatísticas para ver que mulheres ainda tem muito espaço para conquistar, e infelizmente, muito que se defender. Você como parte interessada da história precisa adicionar um pouquinho de feminismo ao seu feminino. Vai ser melhor pra todo mundo.

Publicado na Revista Gloss – janeiro/2012

fungos

É muito interessante essa coisa de existir ser vivo que não bactéria, animal ou vegetal. Vou muito com a cara dos fungos por isso. Enquanto os outros reinos ganham atenções as mais diversas, existem vegetarianos, movimento pelas florestas, defensores da causa animal, toda a ciência em volta das bactérias, os fungos padecem na copa das árvores, ou se infiltrando nos alimentos pra chamar nossa atenção. Não existe uma lista de fungos em extinção, nunca foi feito um Globo Repórter para mostrar as belezas dos cogumelos da Amazônia ou da Ilha de Bali, nenhuma ong se posiciona com relação a eles. Parece que o desprezo é antigo, não se tem notícia de representação de cogumelos e afins nas cavernas.

Um olhar sociológico diria que a relação com fungos é determinada pela classe.  A classe C só entra em contato com fungos quando o pão mofa e eventualmente quando opta por pizza de champignon. Já o topo da pirâmide consome desde trufas a queijos cujo sabor é modificado pela ação de penicilium, o mesmo que deu origem a penicilina. Taí um tema pra campanha eleitoral (de esquerda, talvez), democratizar o acesso aos fungos comestíveis.

Fiquei pensando nessa história de fungos enquanto provocava uma chacina ao esfregar pra tirar o mofo dos azulejos do banheiro. Fui longe, imaginando uma seleção natural favorável aos fungos, com cogumelões antropomorfos chegando do trabalho e se estirando no sofá ou fazendo a feira (de verduras apenas, fungos evoluídos seriam vegetarianos). Desculpem aí cientistas, sei que não faz sentido, cogumelos que falam só existem nos Smurfs, embora tenha quem garanta que já trocou altas ideias com caras do reino fungi.

Minha primeira (e única) namorada

Quando alguém me pergunta se já namorei, digo que não, nunca, jamais, estou na pista pra negócio.  É fato que minto nesse caso, já namorei sim, tudo bem que foi enquanto criança, tudo bem que respeitando todos os limites que namoros infantis e católicos devem seguir, mas namorei sim. A namorada era linda, tinha bochechas rosadas, mãozinhas delicadas, sorriso que vacilava entre irônico e tímido. Tinha um nome esquisito também, que era variação de outro nome estranho, tipo Narroxane, mas isso não importava muito. Namoramos por uns seis meses, até que mudamos de escola e  nunca mais nos vimos.

O relacionamento não teve nada demais, se quer saber o que aconteceu com ela, conto agora: ficou grávida e casou. Ponto. O legal mesmo é a história da família dela. De forma torta, vinha de linhagem nobre. Sua avó tinha sido a principal prostituta da região do Brejo, lugara da minha cidade onde a lama se acumulava em todos os sentidos. De tão bonita, dona Rosalva nem parecia puta para os olhos das senhoras da cidade, conversava e ia às compras com elas, mas de noite dormia com seus maridos. No carnaval, ela capitaneava um bloco de putas e bêbados que passavam pela cidade como uma corte real. Foi numa dessas que dona Rosalva virou rainha, não apenas do carnaval, mas das putas, do Brejo e da cidade.

O que poderia ter se tornado um império da prostituição acabou com a gravidez precoce da única filha, que além de tudo preferiu morar com o pai da criança. Nada mais decepcionante para quem poderia ter expandido os negócios da família. Dona Rosalva ficou velha e assumiu de vez o papel de avó.  Bom, mas foi assim que nasceu Narroxane, neta da rainha, princesa herdeira do trono de puta, que mais tarde veio decepcionar os sonhos secretos de dona Rosalva para restaurar o reinado. Pelo contrário, a menina se revelou dessas meninas que querem casar, engravidar, ter filhos, não necessariamente nessa ordem.

Perdi a chance de ser príncipe.

Oriximiná

Andei pensando em me mudar pra Oriximiná. Faz dias que o nome dessa cidade não sai da minha cabeça e interpretei isso como sinal para planejar algo nesse sentido. A cidade fica no Pará e as fotos do Google indicam que é próximo a um rio. O nome da cidade significa zangão em uma língua indígena, não sei o que isso quer dizer. Também não faço ideia se seria feliz em Oriximiná, mas ando nessa fase de imaginar as possibilidades que a vida oferece em outro lugar. Lá eu poderia sentar à beira do rio no fim de tarde e sentir alguma paz, desde que munido de bom repelente para insetos. Poderia levar ao extremo a experiência de viver no tédio absoluto, ter relações mínimas com pessoas, restritas a cumprimentos e ao comércio. Não sei com o que trabalharia por lá, acho que não devo me importar em viver com pouco em Oriximiná. Só queria a experiência de viver num lugar chamado Oriximiná.¹

 

 

 

 

 

 

¹ Nada contra, mas que meus sonhos não se concretizem.